Nos últimos meses, temos sentido com mais clareza o desconforto silencioso que atravessa muitas organizações. Não, nem sempre há casos de assédio “graves” ou visíveis — mas há quase sempre um ambiente que tolera pequenas violências diárias, comentários disfarçados de piadas, silêncios cúmplices, normalizações perigosas. E isso também é assédio. Ou, no mínimo, o terreno fértil para que ele aconteça.
O que temos visto nas formações que facilitamos é isto: as pessoas sabem. As pessoas sentem. E muitas vezes ficam caladas — não por falta de consciência, mas por medo.
Medo de não serem levadas a sério.
Medo de serem vistas como conflituosas.
Medo de represálias.
Medo de que “seja pior para mim”.
E é assim que se perpetuam os ambientes onde se engole a dor, onde se tolera o intolerável e onde se vive a trabalhar num estado de tensão crónica, como quem pisa ovos.
O assédio não começa com um grito
Há formas de assédio que não gritam, mas vão moendo por dentro. Pode ser o tom de voz, o isolamento sistemático, a sobrecarga imposta, o desprezo disfarçado. Pode ser um toque fora de contexto, um comentário sexual, uma insistência não solicitada. Nem sempre há gritos — mas há sempre uma perda de dignidade.
E, talvez mais doloroso do que o próprio comportamento abusivo, é a sensação de estar sozinho(a). Quando ninguém vê. Quando toda a gente vê, mas finge que não. Quando o “não vale a pena” já é o pensamento automático.
O que podemos fazer diferente?
Felizmente, há sinais de mudança. Em várias empresas com quem temos trabalhado, temos sentido uma vontade real de transformar a cultura — mesmo onde ainda se vive muito medo. É aqui que entra o verdadeiro poder da informação, da escuta e da partilha. Quando se cria um espaço seguro para nomear o que se sente, começam a emergir histórias. Muitas. Demasiadas.
E é aí que começa o verdadeiro trabalho: reconhecer, compreender e agir.
Não basta saber o que é assédio. É preciso perceber o que se faz quando ele acontece. Como se cuida de quem o vive. Como se deixa claro que ali não se tolera. E como se constrói um ambiente onde as pessoas não têm de se proteger umas das outras, mas podem apoiar-se.
Empoderar para transformar
Esta é, talvez, a parte mais bonita do que temos vivido: ver pessoas a reencontrar o seu lugar. A sentir que podem dizer “isto não é ok”. A perceber que há ferramentas, estratégias, formas de se proteger e de proteger os outros.
Porque falar sobre assédio não é apenas evitar o pior. É criar um ambiente onde o respeito seja um valor vivido, não um slogan de parede. É ajudar cada pessoa a sentir-se segura no lugar onde passa grande parte dos seus dias. É ensinar que denunciar não é ser conflituoso — é ser corajoso. E que apoiar alguém que passa por isso não é meter-se onde não é chamado — é ser humano.
Na Maestra, temos aprendido muito com todas as pessoas que se sentam connosco para falar sobre este tema. Com coragem, com medo, com dúvidas. A verdade é que, mesmo em ambientes mais conscientes, ainda há um longo caminho a fazer. E cada conversa que abrimos, cada partilha que acolhemos, é mais um passo nesse caminho.
Porque onde há silêncio com dor, é urgente fazer barulho com consciência.
