Há temas que aparecem com frequência em consulta, muitas vezes relacionados com as dinâmicas que surgem nas relações afetivas e de maior intimidade. A pessoa consegue explicar o funcionamento da relação, consegue identificar padrões, nomear comportamentos e até antecipar o que vai acontecer. Mas o que não consegue é alterar a dinâmica. Isto acontece muito em relações de casal, mas não é menos comum em relações familiares ou profissionais, porque elas também são próximas e de alguma forma íntimas, pelo quanto mexem connosco.
“Se eu já percebo o que se passa, porque é que continuo a reagir da mesma forma?”
Compreender não é o mesmo que mudar
Grande parte das pessoas já fez algum trabalho de reflexão.
Leu, ouvi conteúdos, falou com amigos, talvez até tenha feito terapia.
Tem uma compreensão cognitiva do problema.
Mas há uma diferença importante entre compreender e reorganizar a forma como o sistema nervoso reage.
António Damásio descreve bem esta diferença quando distingue entre processos cognitivos e marcadores somáticos. A forma como reagimos não depende apenas do que sabemos, mas da forma como o corpo aprendeu a responder a determinadas situações ao longo da vida.
Isto ajuda a explicar porque é que alguém pode dizer
“eu sei que isto não faz sentido, mas continuo a sentir assim”.
São padrões que se repetem nas várias relações que vamos estabelecendo ao longo da vida, e quando olhamos com mais atenção, algumas dinâmicas aparecem com frequência e até conhecemos pessoas que passam por situações semelhantes
• Uma pessoa que precisa de proximidade
• Outra que se afasta quando sente pressão
• Uma pessoa que tenta manter controlo
• Outra que reage com oposição ou resistência
• Uma pessoa que procura validação
• Outra que critica ou minimiza
Estes padrões não são aleatórios.
Têm uma lógica interna e, muitas vezes, uma história, porque em algum momento da nossa vida, resultam de uma escolha adaptativa para aliviar um desconforto ou um sofrimento interno.
A origem adaptativa dos padrões
A investigação na área do apego (iniciada por John Bowlby e aprofundada por Mary Ainsworth), mostra que as primeiras relações influenciam a forma como regulamos proximidade, distância e segurança nas relações adultas.
Uma criança que não teve respostas consistentes pode desenvolver uma maior sensibilidade ao abandono.
Uma criança que teve de se adaptar a um ambiente emocionalmente exigente pode aprender a antecipar necessidades dos outros.
Outra pode ter aprendido que expressar emoções não é seguro.
Estes padrões não são disfuncionais na origem. São adaptações. O problema surge quando continuam a operar de forma automática, mesmo em contextos diferentes.
Ora quando dois adultos se encontram, decidem ter uma relação, estreitar uma amizade, fazer uma parceria, ou o destino os coloca a trabalhar no mesmo projeto, não temos apenas dois adultos, temos também dois padrões se encontram, às vezes chocam, e as relações tornam-se mais difíceis nessa interação.
Um exemplo comum descrito na literatura sobre relações é o ciclo perseguidor-distanciador. Em que um dos elementos procura proximidade, clarificação, contacto.
O outro sente essa aproximação como pressão e afasta-se. Quanto mais um insiste, mais o outro se afasta. Quanto mais o outro se afasta, mais o primeiro intensifica.
Sem consciência deste ciclo, cada pessoa interpreta o comportamento do outro como causa, não como resposta. E muitas tentativas de resolver estas dinâmicas ficam ao nível do comportamento visível, porque nenhum dos intervenientes consegue realmente alcançar o que está em casa… e então desgastam-se a…
• Discutir o que foi dito
• Tentar corrigir atitudes
• Exigir mudança
Porque quando o comportamento é expressão de um padrão mais profundo, estas intervenções têm efeito limitado, porque é como se estivessem a discutir realidades diferentes.
Mas quando o padrão é reconhecido, não só pelo comportamento observável, mas pelo que dá origem ao comportamento, ele deixa de ser interpretado apenas como intenção e pode ser visto como expressão de um funcionamento.
Isto permite três coisas
• reduzir a reatividade imediata
• aumentar a capacidade de escolha
• introduzir pequenas variações na resposta
Não se trata de aceitar tudo nem de justificar comportamentos. Trata-se de perceber o que está em jogo.
A complexidade real das relações
A ideia de que as relações se resolvem com comunicação clara ou com esforço não é suficiente para explicar a experiência de muitas pessoas. As relações são sistemas onde se cruzam histórias, adaptações e formas de regulação emocional.
Perceber isso não resolve tudo. Mas muda a forma como se olha para o problema.
E, muitas vezes, é esse o primeiro passo para sair de ciclos que parecem repetitivos.
Se quiser aprofundar estes temas, lançámos um ciclo de conversas onde exploramos diferentes padrões psicológicos nas relações, como se formam e como se manifestam em contextos reais. Saiba mais aqui.
